terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cinética de consumo de oxigênio. Parte 1


Desde 1923 quando Archibald Vivian Hill e Hartley Lupton ganharam o prêmio Nobel, o consumo de oxigênio (VO2) passou a ter presença frequente nas pesquisas sobre as respostas fisiológicas durante o exercício. Cerca de 100 anos atrás, Krogh e Lindhard (1913) mensuraram graficamente o consumo de O2 em um intervalo de tempo específico após o início de exercício de intensidade moderada. Eles encontraram que o VO2 alcançava um estado estável em seus valores com 1 – 2 minutos de exercício leve, com 3 minutos para o exercício moderado, mas não encontrava o estado de equilíbrio com um exercício muito pesado. Por cerca de 40 anos os estudos pioneiros de Krogh e Lindhard foram seguidos com um foco principal na resposta do VO2 depois do exercício.
Mais recentemente, estudos realizados por Gaesser e Poole (1996) propuseram três domínios de intensidade de esforço. O domínio moderado compreende todas as intensidades de esforço que podem ser realizadas sem alteração do lactato sanguíneo em relação aos valores de repouso ou abaixo do LAer e/ou primeiro limiar de transição fisiológica (LTF1). O domínio pesado tem como limite inferior a menor intensidade de esforço que pode ser realizada no LTF1 e tem como limite superior a intensidade correspondente à máxima fase estável de lactato (MLSS) e/ou OBLA, que representam o segundo limiar de transição fisiológica (LTF2). O domínio severo inicia após a intensidade referente ao LTF2, com esta se elevando durante todo o tempo de esforço, até que o indivíduo atinja exaustão. Porém Hill, Poole e Smith (2002) propuseram que o limite superior do domínio severo é a intensidade de exercício acima da qual a duração do esforço é tão curta, que o VO2max não é atingido. Em indivíduos ativos, esta intensidade correspondeu a 136% da potência máxima atingida durante um teste incremental na bicicleta ergométrica.
Nos diferentes domínios de intensidade de exercício a cinética do Vo2 comporta-se de maneira diferente. Durante o exercício com uma taxa de trabalho abaixo do LTF1 o VO2 aumenta exponencialmente encontrando um estado estável com aproximadamente 2 minutos. Para o exercício com intensidades acima do LTF1 a cinética de VO2 torna-se mais complexa. Surge um componente (componente lento) adicional que se desenvolve lentamente e atrasa a obtenção do estado estável (15 a 20 min) que, quando encontrado apresenta um valor maior do que aquele que é predito na relação VO2 versus carga abaixo do LTF1. No domínio severo (acima do LTF2) o VO2 eleva-se mono ou bi – exponencialmente dependendo da intensidade de exercício acima ou abaixo do VO2max, respectivamente, até que este seja encontrado (GAESSER; POOLE, 1996; XU; RHODES, 1999; CAPUTO; DENADAI, 2008).
A cinética de VO2 apresenta três fases dependentes do domínio de intensidade analisado. A fase cardiodinâmica (fase 1) representa os primeiros 15 – 25 s do exercício e parece estar relacionada ao aumento do debito cardíaco e do fluxo sanguíneo nos pulmões (WHIPP; ÖZYENER, 1998). A fase 2 parece refletir as mudanças no metabolismo oxidativo muscular com um continuo aumento do retorno venoso e maior extração periférica de O2. O tempo de duração desta fase é dependente do domínio em que o exercício é realizado. No domínio moderado (abaixo do LTF1) e em indivíduos normais o estado estável ocorre em 80 – 110 s. Para o domínio pesado ou severo (abaixo do VO2max) o componente lento atrasa o alcance deste estado de equilíbrio em torno de 15 a 20 min de exercício. Finalmente a fase 3, representa o estado estável do VO2 para intensidades em que ele é atingido,  que no domínio moderado pode apresentar um comportamento linear aproximado de 9 - 11 ml.W-1.min-1 (WHIPP; ÖZYENER, 1998; XU; RHODES, 1999; DENADAI; CAPUTO, 2003).
Nos últimos anos alguns estudiosos procuram analisar a cinética de VO2 em esportes acíclicos e intermitentes e principalmente com futebol podemos encontrar na literatura algumas pesquisas desde o estudo de Dupont et al. (2005) até o mais recente de Christensen et al. (2011). Porém não é de nosso conhecimento pesquisas que investigaram fatores associados a esta temática com jogadores de futsal.

CONTINUA NOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS...ABRAÇOS.

Referências Bibliográficas

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