quarta-feira, 19 de junho de 2013

Características fisiológicas e de performance dos Sprints repetidos.

Gostaria de dar sequência a série de posts que vinha postando sobre o comportamento da cinética de VO2 e sobre o efeito do exercício prévio na mesma. Nas postagens anteriores abordei sobre como analisar o comportamento do consumo de oxigênio, sobre as variáveis envolvidas, resenhas de artigos que tratavam do assunto e na penúltima publicação demonstrei um exemplo prático para um sujeito demonstrativo de como uma carga prévia de exercício pesado pode afetar uma segunda carga na mesma intensidade. Neste caso específico observamos que a amplitude do componente fundamental foi mais alta e a amplitude do componente lento foi menor (veja maiores detalhes na postagem anterior). Vale ressaltar que a literatura mostra que a o exercício prévio geralmente não influencia a constante tempo (t) e nem sempre influencia a amplitude do componente lento. Além disso, em um estudo interessante Jones et al. (2008) demonstraram que não houve efeito de um exercício prévio realizado em esteira no domínio severo (70% da diferença entre o limiar aeróbio e o consumo máximo de oxigênio) sobre uma segunda carga nessa mesma intensidade.

A partir desta postagem e da próxima vou abordar sobre o efeito do exercício na forma de sprints repetidos  (RSA) sobre a cinética de VO2. Primeiramente precisamos entender um pouco o comportamento do organismo durante a realização do RSA. Estas características vão depender do volume e da intensidade é claro, e geralmente os protocolos de RSA são realizados na maior velocidade possível, e as grandes diferenças ficam nas características da recuperação como por exemplo o numero de estímulos e a distância dos mesmos e o tipo de recuperação passivo ou ativo. Nos esportes coletivos,  sprints e habilidade de realizar estes repetidamente (repeated-sprint ability - RSA) são um dos principais fatores de performance física. O desempenho em testes de RSA requer a maior velocidade durante o primeiro sprint e a manutenção desta nas repetições subsequentes (DUPONT et al., 2010). Podem ser definidos dois tipos de RSA, os exercícios de sprints intermitentes podem ser caracterizados por esforços de curta duração (≤ 10 s) intercalados por períodos de recuperação com tempo suficiente (60-300 s) para alcançar uma recuperação completa da performance de sprint. Em comparação os sprints repetidos também são caracterizados por esforços de curta duração (≤ 10 s), porém com períodos breves de recuperação (≤ 60 s). A maior diferença é que nos sprints intermitentes existe um pequeno ou nenhum percentual de drecéscimo nos sprints (Sdec), enquanto que nos sprints repetidos é possível identificar um alto Sdec (GIRARD; MENDEZ-VILLANUEVA; BISHOP, 2011).

No gráfico acima observa-se o comportamento da frequência cardíaca (FC) durante a realização de um protocolo de RSA intermitente de 6 x 40 m com mudanças de direção a cada 10 m e um minuto de recuperação entre os estímulos em dois dias diferentes para um sujeito representativo.
Nesse segundo gráfico podemos observar os valores de índice de fadiga na coluna da esquerda e linha vermelha e o comportamento da FC na coluna da direita e linha preta. Valores em percentuais do melhor sprint e da FC máxima, respectivamente, para o mesmo sujeito representativo do exemplo anterior.

CONTINUAREMOS NO PRÓXIMO POST! ABRAÇOS A TODOS E FIQUEM COM AS BENÇÃOS DE DEUS.

DUPONT, G.; MCCALL, A.; PRIEUR, F.; MILLET, G. P.; BERTHOIN, S. Faster oxygen uptake kinetics during recovery is related to better repeated sprinting ability. European Journal Applied Physiology, v. 110, n. 3, p. 627–634, 2010.

GIRARD, O.; MENDEZ-VILLANUEVA, A.; BISHOP, D. Repeated-sprint ability – part 1: factors contributing to fatigue. Sports Medicine, v. 41, n. 8, p. 673 -694, 2011.


JONES, A. M.; DIMENNA, F.; LOTHIAN, F.; TAYLOR, E. G.; GARLAND, S. W.; HAYES, P. R.; THOMPSON, K. G. “Priming” exercise and O2 uptake kinetics during treadmill running. Respiratory Physiology & Neurobiology, v. 161, n. 2, p. 182-8, 2008.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

REPRODUTIBILIDADE E INFLUÊNCIA DA MATURACÃO BIOLÓGICA NO DESEMPENHO DO TESTE T-CAR EM JOGADORES DE FUTEBOL DE 10 A 13 ANOS


Autor: Anderson Santiago Teixeira
Orientador: Luiz Guilherme Antonacci Guglielmo

A potência aeróbia máxima é considerada uma variável importante para o desempenho competitivo de jogadores de futebol. A escolha e seleção de testes válidos e fidedignos são recomendados para uma boa avaliação da potência aeróbia máxima. O teste T-CAR foi recentemente validado para predição da potência aeróbia máxima e o PV apresentou alta reprodutibilidade em jogadores adultos jovens (sub-20). No entanto, na faixa etária de 10-13 anos ainda não foi investigada a reprodutibilidade, e sabe-se que o estado maturacional pode influenciar diretamente o desempenho em testes físicos, como o T-CAR.

Portanto, o objetivo deste estudo foi verificar a reprodutibilidade do PV e FCmax determinado no T-CAR e a influência da maturação biológica sobre a performance de jogadores de futebol de 10 a 13 anos durante a realização do T-CAR. Participaram do estudo 37 adolescentes jogadores de futebol (12,5±1,1 anos, 43,4±11,1 kg, 152,2±10,8 cm, 16,68±4,60 % de gordura). 

Inicialmente os atletas realizaram o teste T-CAR para determinação do pico de velocidade (PV) e frequência cardíaca máxima (FCmax) em dois momentos diferentes. O T-CAR possui multi-estágios de 12s de corrida de ida e volta com pausas de 6s, velocidade inicial de 9,0 km.h-1 (incrementos de 0,6 km.h-1 a cada 90 segundos). Posteriormente, em outro dia, os atletas realizaram as avaliações de maturação sexual e esquelética no hospital para determinação dos estágios de Tanner e idade esquelética, respectivamente.

Foi empregada a análise descritiva (média e desvio-padrão), seguido do teste de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade dos dados. A análise de variância ANOVA oneway foi utilizada para comparar a diferença entre os valores de PV e as variáveis referentes à antropometria e maturação biológica dos atletas classificados nos diferentes estágios maturacionais esqueléticos, seguido do teste post-hoc de Tukey. Para verificar a reprodutibilidade do PV e FCmax foram utilizados o coeficiente de correlação intraclasse (CCI), erro típico de medida (ETM), coeficiente de variação do ETM (ETMCV).

O PV obtido no T-CAR não apresentou diferenças significativas entre os grupos maturacionais (14,4±0,7 vs. 14,7±1,1 vs. 14,3±0,9 km.h-1, para o grupo atrasado, normal e adiantado, respectivamente). Além disso, não houve diferença significativa para os valores de PV (14,2±1,0 vs. 14,4±1,1 km.h-1; p>0,05) e FCmax (201±9 vs. 203±10 bpm; p>0,05) entre a situação de teste e reteste, assim como encontrou-se correlações alta e muito alta para os valores de FCmax (r=0.67) e PV (r=0.85) obtidos no T-CAR, respectivamente.





Esses resultados destacam que o teste de campo T-CAR é reprodutível para avaliação da aptidão aeróbia de atletas de futebol no início da adolescência (10 a 13 anos) e que a performance no T-CAR não é influenciada pela maturação biológica, apresentando desta forma, implicações relevantes para detecção de jovens atletas talentosos.

Para mais informações deixe seu comentário! Fiquem com Deus e até a próxima!

terça-feira, 19 de março de 2013

Efeito do exercício prévio: exemplo prático


Nas últimas postagens estive abordando sobre as questões relacionadas à cinética do consumo de oxigênio e como o efeito do exercício prévio pode alterar este comportamento da cinética através das resenhas de artigos que tratam do assunto (dois ultimos posts). Nessa postagem quero compartilhar com vocês um exemplo prático desse efeito de um exercício realizado logo antes a execução de uma carga constante para determinar a cinética do VO2. Vale ressaltar que de acordo com a literatura o modo de exercício (ex. corrida ou ciclismo) interfere na cinética do VO2 e que a forma como é realizado o exercício prévio também tem diferentes conseqüências na cinética de uma carga posterior, sendo que o exercício moderado parece não ter efeito e que este efeito parece ser dependente da geração de uma acidose metabólica (veja as postagens anteriores para maiores detalhes).


No caso observado na figura em questão, um determinado sujeito fisicamente ativo e praticante de futebol recreacional de 29 anos realizou duas cargas constantes de corrida na esteira de 6 min cada no domínio pesado de esforço (50% da diferença entre o primeiro limiar de transição fisiológica e o VO2max) com 6 min de recuperação passiva entre elas. As bolinhas pretas são os valores de VO2 para primeira carga de 6 min. Os triângulos vermelhos representam os valores de VO2 durante a segunda carga. Observa-se claramente que durante a segunda carga (pós o exercício prévio) a amplitude da fase fundamental foi mais alta, ou seja, parece ter estabilizado mais rápido (menor déficit de O2), e a amplitude do componente lento foi menor (melhor eficiência metabólica).

Abraços e continuamos no próximo post!

segunda-feira, 4 de março de 2013

RESENHA DE ARTIGO: ‘Priming’ exercise and O2 uptake kinetics during treadmill running. Jones et al. 2008.


Comumente os estudos realizam duas series de 6 min de exercício separadas por 6 min de recuperação. Tem sido demonstrado que na segunda transição desses modelos de exercício a cinética de VO2 é significativamente diferente da primeira, com a resposta da cinética ‘como um todo’ sendo mais rápida (ex: mensurada através do tempo médio de resposta - MRT) devido predominante numa redução na amplitude do componente lento do VO2. As principais causas de alterações na cinética de VO2 após o exercício prévio ainda permanece para ser resolvida, mas pode envolver melhoras no fornecimento de O2, e/ou um parcial ‘alivio’ da inércia metabólica oxidativa do músculo, e/ou alterações no perfil de recrutamento das unidades motoras. Uma melhora na contribuição oxidativa da dos processos de fornecimento de energia através da transição ao exercício tem um importante ponto pratico: uma cinética de VO2 ‘total’ mais rápida depois do exercício prévio pode reduzir a taxa na qual o músculo desenvolve fadiga por uma redução na magnitude no ‘deficit de O2’ muscular. É surpreendente que os estudos anteriores que investigaram exercício prévio focaram somente e exclusivamente nas respostas ao exercício em cicloergômetro.
É sabido que a cinética de VO2 em outros modos de exercício, inclusive corrida em esteira, pode ter diferentes características. Por exemplo, a constante tempo (t) da fase II do VO2 pulmonar tende a ser mais rápida e a amplitude do componente lento tende a ser menor na corrida comparada com o exercício cíclico (BILLAT et al., 1998; CARTER et al., 2000; JONES; McCONELL, 1999).
Dessa forma, o objetivo do estudo foi investigar a influência do exercício prévio na cinética do VO2 durante corrida na esteira. Foi hipotetizado que o exercício prévio poderia 1) não influenciar significativamente a constante tempo para fase II da resposta do VO2; 2) reduzir significantemente a amplitude do componente lento; 3) resultar em uma significante aceleração da cinética de VO2 ‘total’ (através do tempo de resposta médio).

Quem quiser o texto na integra do artigo mencionado deixe seu comentário! Abraços a Todos.


JONES, A. M.; DIMENNA, F.; LOTHIAN, F. TAYLOR, E.; GARLAND, S. W.; HAYES, P. R.; THOMPSON, K. G. “Priming” exercise and O2 uptake kinetics during treadmill running. Respiratory physiology & neurobiology, v. 161, n. 2, p. 182-8, 2008. 

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

RESENHA DE ARTIGO SOBRE EXERCÍCIO PRÉVIO: Effects of prior heavy exercise, prior sprint exercise and passive warming on oxygen uptake kinetics during heavy exercise in humans. Burnley; Doust, Jones 2002.


Está claramente estabelecido que séries de exercício prévio de intensidade pesada (acima do limiar de latato – LL) afeta o curso do tempo do consumo de oxigênio pulmonar (VO2) numa carga posterior de exercício pesado (GERBINO et al., 1996). Os estudos tem demonstrado a adaptação total do VO2 foi mais rápida e a amplitude do componente lento do VO2 foi reduzida durante a segunda de duas series de exercício pesado. Nesse sentido, o estudo estabeleceu que o exercício prévio de intensidade pesada não acelera a cinética do componente primário do VO2 (BURNLEY et al., 2000) mas aumenta a amplitude desta resposta primaria e diminui a amplitude da resposta do componente lento (BURNLEY et al., 2001). Entretanto, exercício prévio de intensidade moderada não tem afetado a resposta do VO2 em exercício pesado subsequente (GERBINO et al., 1996; BURNLEY et al., 2000).
Tem sido indicado que uma acidose metabólica é necessária para que o perfil da resposta do VO2 seja alterado em uma serie subsequente de exercício. Gerbino et al. (1996) propôs que a acidose residual que esta presente após uma serie de exercício pesado pode promover vasodilatação e perfusão muscular e portanto, compensar uma deficiência na disponibilidade de oxigênio no inicio de uma segunda serie de exercício pesado. Além disso, uma elevada concentração de lactato sanguíneo [La] por si só pode aumentar o VO2 corporal total durante o exercício pela estimulação da respiração mitocondrial (STRINGER et al., 1994; WILLIS; JACKMAN, 1994). Entretanto, evidências empíricas para esses potenciais efeitos em humanos se exercitando ainda são limitadas.
Dessa forma, não é conhecido qual o efeito do tipo de intensidade de exercício (ex: intensidade pesada continua ou sprints de curta duração) desempenhado pelo mesmo grupo muscular (ex: membros inferiores) terá na resposta do VO2 em exercício subsequente. Por exemplo, se a acidose é um importante mediador dos efeitos observados, depois do exercício prévio de sprint, que deverá resultar numa maior [La] do que o exercício de intensidade pesada, poderá ampliar esses efeitos.
Assim, o objetivo do estudo foi determinar se o exercício prévio de sprints de curta duração poderia exercer similares efeitos na resposta do VO2 no exercício pesado subsequente do que os observados seguidos de uma serie idêntica na mesma intensidade (domínio pesado).


BURNLEY, M.; DOUST, J. H.; JONES, A. M. Effects of prior heavy exercise, prior sprint exercise and passive warming on oxygen uptake kinetics during heavy exercise in humans. European Journal of Applied Physiology, v. 87, n. 4, p. 424-432, 2002.

Se alguém quiser a versão completa do artigo deixe um comentário que disponibilizarei.
Abraços e até a próxima!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cinética do consumo de oxigênio: Respostas on e off da cinética de VO2 - Parte 2



A fase inicial da transição do repouso para o exercício (resposta on) resulta em um aumento exponencial do VO2 com concomitante degradação do ATP. Assim sendo, modelos matemáticos têm sido aplicados no comportamento do VO2 para auxiliar na compreensão da dinâmica do sistema oxidativo. Da mesma forma, logo após o final do esforço físico a cinética de VO2 demonstra um comportamento similar à resposta on (resposta off) mas em sentido decrescente (IDSTRÖM et al., 1985).
O interesse de se observar o fenômeno on da cinética de VO2 por meio da resposta temporal deve-se a tentativa de compreender os fatores intracelulares que regulam a ativação do sistema oxidativo (ROSSITER et al., 2002). Rossiter et al. (2002) demonstraram que a ativação do metabolismo oxidativo é dependente da degradação do ATP e da CP na fase inicial do exercício durante a fase 2 da cinética on do VO2. Uma resposta on de VO2 mais rápida pode reduzir o déficit de oxigênio, reduzindo o fornecimento de energia a partir do nível de fosforilação de substratos e do acúmulo de metabólitos relacionados com a fadiga, tais como H+ e Pi (BAILEY et al., 2009).
Depois do exercício o VO2 decresce exponencialmente até atingir valores de base que podem ser mais altos que os do pré-esforço, fenômeno este denominado de cinética off do VO2. A resposta off pode ser dividida em duas fases, uma rápida que parece estar ligada a recuperação da CP e dos estoques de O2, e outra lenta associada a degradação das concentrações de lactato sanguíneo e catecolaminas induzidas pelo exercício realizado (WHIPP; ÖZYENER, 1998; XU; RHODES, 1999). Simetria entre as respostas on e off da cinética de VO2 tem sido encontradas para intensidades do domínio moderado, assim como para intensidades mais altas, do domínio pesado ao severo (ÖZYENER et al., 2001).
Segundo Whipp e Özyener (1998) os princípios da cinética on podem também serem aplicados a resposta off por possuírem comportamentos semelhantes mas em sentido contrário. Diferentes pesquisas já demonstraram que as cinéticas off e on apresentaram semelhanças independentemente do domínio de intensidade de exercício e do ergômetro utilizado (DI PRAMPERO et al., 1989; WHIPP; ÖZYENER, 1998; CARTER et al., 2000; ÖZYENER et al., 2001), porém este assunto ainda é controverso com alguns autores afirmando que a constante tempo da resposta (t) off é menor que na on para o domínio pesado (XU; RHODES, 1999).
Özyener et al. (2001) afirmaram que para os domínios moderado e pesado a resposta off do VO2 foi melhor representada por ajustes monoexponenciais, enquanto que para o domínio severo o ajuste deveria ser o bi-exponencial. No entanto, para a cinética on nos domínios moderado e severo acima do VO2max, o ajuste mais adequado foi o monoexponencial, e nos domínios pesado e severo abaixo do VO2max, bi-exponencial (XU; RHODES, 1999; DENADAI;CAPUTO, 2003).
Ainda são poucos os estudos que investigaram o comportamento da cinética de VO2 em atletas de modalidades coletivas. Marwood et al. (2011) demonstraram que o estado de treinamento não afeta a cinética off após exercício no domínio moderado quando compararam 13 adolescentes jogadores de futebol com adolescentes não treinados. No entanto, durante a resposta on a constante tempo (t) na fase 1 foi diferente para os adolescentes treinados em estudo similar (MARWOOD et al., 2010).
Christensen et al. (2011) realizaram um interessante estudo em atletas adultos de futebol que objetivou comparar o efeito do treinamento de 2 semanas no final da temporada com o destreinamento no mesmo período de tempo. Estes autores demonstraram que o grupo que realizou um treinamento de alta intensidade melhorou a economia de corrida (EC) e performance no teste de sprints repetidos (RSA), enquanto que, o grupo que realizou o destreinamento demonstrou uma cinética on no dominio severo mais lenta e um desempenho pior no teste de RSA. Dessa forma, o status de treinamento parece afetar a cinética on de atletas de futebol nos domínios moderado e severo tanto para adolescentes quanto para adultos, porém a escassez de pesquisas tornam os achados inconclusivos.
Alguns estudos têm buscado investigar a relação entre a RSA e o comportamento da cinética de VO2 em atletas de futebol. Para o nosso conhecimento, o primeiro a fazer isso foi o de Dupont et al. (2005) que demonstraram correlações entre a constante tempo (t) nas respostas on do exercício moderado com  o Sdec e com TT no teste de sprints repetidos com 15 repetições de 40 m alternados com 25 s de recuperação ativa. Este mesmo grupo de pesquisadores encontrou relações similares entre a t na resposta off no domínio severo com o Sdec em um protocolo mais curto (7 x 30 m, 20 s de recuperação ativa) (DUPONT et al., 2010).
Rampinini et al. (2009) realizaram uma pesquisa interessante que verificou a relação entre um teste RSA (6 x 40 m, 20 s de recuperação) com a cinética on do VO2 no domínio moderado de exercício (60 % do PV) em atletas de futebol, protocolo semelhante ao utilizado por Dupont et al. (2005). Estes autores demonstraram relações significantes entre o tempo médio e o Sdec com a t, sendo que esta última foi menor para os jogadores profissionais em relação aos amadores. Entretanto, não encontramos na literatura estudos que tenham investigado as relações entre as diferentes variáveis (ex: t e componente lento) durante as respostas on e off em ambos os domínios moderado e severo, com protocolos de sprints repetidos predominantemente anaeróbios em atletas de futsal.

ABRAÇOS E ATÉ A PRÓXIMA!

Referências

BAILEY, S. J.; WILKERSON, D. P.; DIMENNA, F. J.; JONES, A. M. Influence of repeated sprint training on pulmonary O2 uptake and muscle deoxygenation kinetics in humans. Journal Applied Physiology, v. 106, n. 6, 1875–1887, 2009.

           CARTER, H.; JONES, A.M.; BARSTOW, T.J.; BURNLEY, M.; WILLIANS, C.A.; DOUST, J.H. Oxygen uptake kinetics in treadmill running an cycle ergometry: a comparison. Journal of Applied Physiology, v. 89, n. 3, p. 899-907, 2000.
          CHRISTENSEN, P. M.; KRUSTRUP, P.; GUNNARSSON, T. P.; KIILERICH, K.; NYBO, L.; BANGSBO, J.VO2 kinetics and performance in soccer players after intense training and inactivity. Medicine Science Sports Exercise, v. 43, n. 9, p. 1716-24, 2011.

         DENADAI, B. S.; CAPUTO, F. Efeitos do treinamento sobre a cinética de consumo de oxigênio durante o exercício realizado nos diferentes domínios de intensidade esforço. Motriz, v. 9, n. 1, (Supl.), p. S1 – S7, 2003.
          DI PRAMPERO, P.E.; MAHLER, P.B.; GIEZENDANNER, D.;  CERRETELLI, P. Effects of priming exercise on VO2 kinetics and O2 deficit at the onset of stepping and cycling.  Journal of Applied Physiology, v. 66, n. 5, p. 2023-2031, 1989.
           DUPONT, G.; MILLET, G. P.; GUINHOUYA, C.; BERTHOIN, S. Relationship between oxygen uptake kinetics and performance in repeated running sprints. European Journal Applied Physiology, v. 95, n. 1, p. 27–34, 2005.
DUPONT, G.; MCCALL, A.; PRIEUR, F.; MILLET, G. P.; BERTHOIN, S. Faster oxygen uptake kinetics during recovery is related to better repeated sprinting ability. European Journal Applied Physiology, v. 110, n. 3, p. 627–634, 2010.

IDSTRÖM, J. P.; SUBRAMANIAN, V. H.; CHANCE, B.; SCHERSTEN, T.; BYLUND-FELLENIUS, A. C. Oxygen dependence of energy metabolism in contracting and recovering rat skeletal muscle. American Journal of Physiology, v. 248, n. 17 (Heart Circulation Physiology), p. H40-H48, 1985.

MARWOOD, S.; ROCHE, D.; ROWLAND, T.; GARRARD, M.; UNNITHAN, V. B. Faster pulmonary oxygen uptake kinetics in trained versus untrained male adolescents. Medicine Science and Sports Exercise, v. 42, n. 1,p.127–134, 2010.

MARWOOD, S.; ROCHE, D.; GARRARD, M.; UNNITHAN, V. B. Pulmonary oxygen uptake and muscle deoxygenation kinetics during recovery in trained and untrained male adolescents. European Journal of Applied Physiology, v. 111, n. 11, p. 2775-84, 2011.

ÖZYENER, F.; ROSSITER, H. B.; WARD, S. A.; WHIPP, B. J. Influence of exercise intensity on the on- and off-transient kinetics of pulmonary oxygen uptake in humans.  Journal of Physiology, v. 533, n. 3, p. 891-902, 2001.

RAMPININI, E.; SASSI, R.; MORELLI, A.; MAZZONI, S.; FANCHINI, M.; COUTTS, A. J. Repeated-sprint ability in professional and amateur soccer players. Applied Physiology Nutrition Metabolism, v.34, n.6, p.1048-54, 2009.

ROSSITER, H. B; WARD, S. A.; KOWALCHUCK, J. M.; HOWE, F. A.; GRIFFITHS, J. R.; WHIPP, B. J. Dynamic asymmetry of phosphocreatine concentration and O2 uptake between the on- and off-transients of moderate- and high-intensity exercise in humans.  Journal of Physiology, v.15, n. 541.3, p. 991-1002, 2002.

WHIPP, B. J.; ÖZYENER, F. The kinetics of exertional oxygen uptake: assumptions and inferences. Medicina Dello Sport, v. 51, p. 139-149, 1998.

XU, F.; RHODES, E. C. Oxygen uptake kinetics during exercise. Sports Medicine, v. 27, n. 5, p. 313-327, 1999.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cinética de consumo de oxigênio. Parte 1


Desde 1923 quando Archibald Vivian Hill e Hartley Lupton ganharam o prêmio Nobel, o consumo de oxigênio (VO2) passou a ter presença frequente nas pesquisas sobre as respostas fisiológicas durante o exercício. Cerca de 100 anos atrás, Krogh e Lindhard (1913) mensuraram graficamente o consumo de O2 em um intervalo de tempo específico após o início de exercício de intensidade moderada. Eles encontraram que o VO2 alcançava um estado estável em seus valores com 1 – 2 minutos de exercício leve, com 3 minutos para o exercício moderado, mas não encontrava o estado de equilíbrio com um exercício muito pesado. Por cerca de 40 anos os estudos pioneiros de Krogh e Lindhard foram seguidos com um foco principal na resposta do VO2 depois do exercício.
Mais recentemente, estudos realizados por Gaesser e Poole (1996) propuseram três domínios de intensidade de esforço. O domínio moderado compreende todas as intensidades de esforço que podem ser realizadas sem alteração do lactato sanguíneo em relação aos valores de repouso ou abaixo do LAer e/ou primeiro limiar de transição fisiológica (LTF1). O domínio pesado tem como limite inferior a menor intensidade de esforço que pode ser realizada no LTF1 e tem como limite superior a intensidade correspondente à máxima fase estável de lactato (MLSS) e/ou OBLA, que representam o segundo limiar de transição fisiológica (LTF2). O domínio severo inicia após a intensidade referente ao LTF2, com esta se elevando durante todo o tempo de esforço, até que o indivíduo atinja exaustão. Porém Hill, Poole e Smith (2002) propuseram que o limite superior do domínio severo é a intensidade de exercício acima da qual a duração do esforço é tão curta, que o VO2max não é atingido. Em indivíduos ativos, esta intensidade correspondeu a 136% da potência máxima atingida durante um teste incremental na bicicleta ergométrica.
Nos diferentes domínios de intensidade de exercício a cinética do Vo2 comporta-se de maneira diferente. Durante o exercício com uma taxa de trabalho abaixo do LTF1 o VO2 aumenta exponencialmente encontrando um estado estável com aproximadamente 2 minutos. Para o exercício com intensidades acima do LTF1 a cinética de VO2 torna-se mais complexa. Surge um componente (componente lento) adicional que se desenvolve lentamente e atrasa a obtenção do estado estável (15 a 20 min) que, quando encontrado apresenta um valor maior do que aquele que é predito na relação VO2 versus carga abaixo do LTF1. No domínio severo (acima do LTF2) o VO2 eleva-se mono ou bi – exponencialmente dependendo da intensidade de exercício acima ou abaixo do VO2max, respectivamente, até que este seja encontrado (GAESSER; POOLE, 1996; XU; RHODES, 1999; CAPUTO; DENADAI, 2008).
A cinética de VO2 apresenta três fases dependentes do domínio de intensidade analisado. A fase cardiodinâmica (fase 1) representa os primeiros 15 – 25 s do exercício e parece estar relacionada ao aumento do debito cardíaco e do fluxo sanguíneo nos pulmões (WHIPP; ÖZYENER, 1998). A fase 2 parece refletir as mudanças no metabolismo oxidativo muscular com um continuo aumento do retorno venoso e maior extração periférica de O2. O tempo de duração desta fase é dependente do domínio em que o exercício é realizado. No domínio moderado (abaixo do LTF1) e em indivíduos normais o estado estável ocorre em 80 – 110 s. Para o domínio pesado ou severo (abaixo do VO2max) o componente lento atrasa o alcance deste estado de equilíbrio em torno de 15 a 20 min de exercício. Finalmente a fase 3, representa o estado estável do VO2 para intensidades em que ele é atingido,  que no domínio moderado pode apresentar um comportamento linear aproximado de 9 - 11 ml.W-1.min-1 (WHIPP; ÖZYENER, 1998; XU; RHODES, 1999; DENADAI; CAPUTO, 2003).
Nos últimos anos alguns estudiosos procuram analisar a cinética de VO2 em esportes acíclicos e intermitentes e principalmente com futebol podemos encontrar na literatura algumas pesquisas desde o estudo de Dupont et al. (2005) até o mais recente de Christensen et al. (2011). Porém não é de nosso conhecimento pesquisas que investigaram fatores associados a esta temática com jogadores de futsal.

CONTINUA NOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS...ABRAÇOS.

Referências Bibliográficas

CAPUTO, F.; DENADAI, B. S. The highest intensity and the shortest duration permitting attainment of maximal oxygen uptake during cycling: effects of different methods and aerobic fitness level. European Journal Applied Physiology, v. 103, n. 1, p. 47-57, 2008.
CARTER, H.; JONES, A.M.; BARSTOW, T.J.; BURNLEY, M.; WILLIANS, C.A.; DOUST, J.H. Oxygen uptake kinetics in treadmill running an cycle ergometry: a comparison. Journal of Applied Physiology, v. 89, n. 3, p. 899-907, 2000.
CHRISTENSEN, P. M.; KRUSTRUP, P.; GUNNARSSON, T. P.; KIILERICH, K.; NYBO, L.; BANGSBO, J.VO2 kinetics and performance in soccer players after intense training and inactivity. Medicine Science Sports Exercise, v. 43, n. 9, p. 1716-24, 2011.
DENADAI, B. S.; CAPUTO, F. Efeitos do treinamento sobre a cinética de consumo de oxigênio durante o exercício realizado nos diferentes domínios de intensidade esforço. Motriz, v. 9, n. 1, (Supl.), p. S1 – S7, 2003.
DI PRAMPERO, P.E.; MAHLER, P.B.; GIEZENDANNER, D.;  CERRETELLI, P. Effects of priming exercise on VO2 kinetics and O2 deficit at the onset of stepping and cycling.  Journal of Applied Physiology, v. 66, n. 5, p. 2023-2031, 1989.
DUPONT, G.; MILLET, G. P.; GUINHOUYA, C.; BERTHOIN, S. Relationship between oxygen uptake kinetics and performance in repeated running sprints. European Journal Applied Physiology, v. 95, n. 1, p. 27–34, 2005.
DUPONT, G.; MCCALL, A.; PRIEUR, F.; MILLET, G. P.; BERTHOIN, S. Faster oxygen uptake kinetics during recovery is related to better repeated sprinting ability. European Journal Applied Physiology, v. 110, n. 3, p. 627–634, 2010.
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